sábado, 26 de setembro de 2015

LIVROS, GUERRA E LIBERDADE

POR CARLOS BELO



“Num lugar como Auschwitz, onde tudo é projetado para fazer chorar, o riso é um ato de rebeldia.”



Peço licença para falarmos de minha última leitura: A Bibliotecária de Auschwitz, do espanhol  Antonio G. Iturbe que faz com maestria um incrível relato, baseado em fatos reais, sobre a juventude de Dita Dorachova, uma menina que fez a diferença em meio ao sofrimento e aos absurdos da Segunda Guerra Mundial. A obra é best-seller na Espanha e vencedora do prêmio espanhol Troa Libros, na categoria “Livros com valor”, já foi publicada em  11 países.
Através das descrições do espaço físico, os cenários bélicos, a poética da dor presente no contexto é possível sentir um calafrio de horror diante dos fatos que a humanidade não pode apagar: a grande carnificina que foi a Segunda Guerra Mundial.  Nesse contexto, a presença de Edita Dorachova se faz notável, uma contradição, um pequeno milagre em meio ao caos. Um povo que perde seus bens, suas casas, e vai sendo destruído aos poucos, vidas abreviadas. Seres humanos que se tornam objetos, máquinas.
Toda a narrativa acontece dentro de Auschwitz, especificamente no Bloco 31, exclusivo para crianças e no Bloco familiar. Ali as coisas não eram nada fáceis e a cada dia a situação se agravava, toda semana chegando novos judeus, vindos de diversas regiões da Europa, alimentos cada vez mais escassos, falta de água, carência em todos os aspectos, mas, sobretudo carência de humanidade.


A leitura vai nos mostrando a importância dos Livros na vida de Edita, que com a ajuda de um professor, se torna a grande figura do bloco 31: A Bibliotecária. Trabalhando na clandestinidade, em um lugar onde os livros eram extremamente proibidos, Edita reúne oito livros que são usados diariamente para entretenimento e educação das crianças judias ali trancafiadas, aos poucos surgem alguns professores que colaboram com o projeto e por conhecerem bem alguma obra literária se tornam “livros vivos”, enriquecendo o acervo da pequena grande biblioteca.

“A vida, qualquer vida, dura muito pouco. Mas se conseguimos ser felizes, ao menos por um instante, terá valido a pena.”

Um hino à Liberdade, assim podemos chamar “A Bibliotecária de Auschwitz”, um livro cheio de emoção, realidade, poesia, silêncios. Um exemplo para nós que muitas vezes queremos ajudar, colaborar com o bem comum e por motivos banais desistimos. Edita teve muito medo, sempre! Mas o amor pelos livros, pela educação, pela humanidade foi maior que o medo e ela enfrentou todos os obstáculos para poder cumprir com excelência sua missão.  É impossível  não sofrer um pouco com ela, não torcer para que as coisas melhorem, não chorar, no final da leitura, quando o fim da guerra é anunciado, é impossível não guardar um pouco de Edita no coração. Fica a sugestão de leitura, até a próxima! 




Referência: ITURBE, Antonio G. A bibliotecária de Auschwitz: Um romance baseado numa hitoria real. Tradução Dênia sad. 1. ed. Rio de janeiro: Agir, 2014.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

ESPERANÇA

 POR JESSY ALMEIDA
Esperança. Espera. Esperar
Esperança. Esperar cansa.
Espera e dança. Esperança
Esperança. Dar esperança.
Ter esperança. Esperar.
 Esperança esperançosa.
Espera o choro parar.
Enche-se de esperança.
Espera. Esperança.
Não desespera.
Dança
Nunca perca a esperança.
ESPERAnça.


A possibilidade de criar, dar sentido às palavras usadas no cotidiano, prestar atenção nelas e no poder que carregam. Assim, inspirada na sugestão do Livro/Diário "Destrua Este Diário" (Keri Smith) que apresenta várias páginas em branco, propondo ao leitor/destruidor sair da mesmice e se permitir brincar e criar, a página inspiradora deste poema sugeria que se escrevesse uma única palavra várias vezes, em todo o espaço. Este Livro seria uma boa sugestão para você que deseja experimentar novas possibilidades de escrita, exploração e destruição artística.












sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A Síria também é Aqui

AOS PEQUENOS DO MUNDO

POR CARLOS BELO

REUTERS/Nilufer Demir



Dorme menino,
Descansa,
Viaja.
Vai para onde os teus sonhos permitem, vai buscar tua paz.
Os cruéis estão ocupados demais para olharam pra ti
Os cruéis procuram o poder.
Viaja menino,
Dorme,
Descansa.
Vai tranquilo, vai sereno, vai enquanto os cruéis não podem te deter.
Levas contigo um pouquinho de mim, levas tantos outros pequenos
Que descansam serenos também, esquecidos, sofridos, meninos.


Que estejamos atentos aos meninos que padecem todos os dias ao nosso redor, meninos que tem suas famílias destruídas, sonhos podados, infâncias abreviadas. A Síria também é aqui. A criança debruçada sobre infinitos grãos de areia. A criança debruçada sobre o mar. Cada pequeno grão de areia tem o papel de representar tantos outros meninos e meninas, homens e mulheres que tiveram suas vidas roubadas pela crueldade humana. Um oceano de dor e sofrimento, mas também um oceano de calmaria final, passagem, fuga.

O mundo carece de gente com olhos atentos, gente que possa estender as mãos para aqueles que precisam de ajuda, gente que se dedique a viver o amor. Que os menores gestos, as mínimas mudanças, as insignificantes ajudas possam ganhar poder e que possamos cuidar de nossos pequenos. Nossos no sentido amplo da palavra, não apenas dos familiares e amigos, nossos porque somos todos um. Pequenos não apenas no sentido de crianças, mas pequenos do mundo, esquecidos, marginalizados, descreditados.