domingo, 20 de março de 2016

A CASA É TÃO GRANDE E AINDA CHOVE

Por Carlos Belo
Foto: Carlos Beo


Eu costumo criar espaços.Organizar meus livros, CD's e verdades. As histórias todas, meus escritos, resenhas e diários de bordo, as senhas de meus cartões, os papéis de embrulho, as cartas, poucas e  sentimentais. Costumo arrumar meus filmes preferidos, meus poemas, balangandãs, amuletos, moedas da sorte. As palavras todas que ouvi, palavras que ainda pairam no ar, grandes demais, pesadas demais. As mentiras todas que ouvi, as tardes de espera, os telefonemas e cada SMS recebido. O conforto às vezes me assusta. Vamos acumulando essas coisas todas e a vida vai se transformando em uma casa cada vez maior, criamos novos cômodos, anexos, porões, quartinhos, dispensas. O medo do desapego é muito grande e, talvez por isso guardamos o que não existe mais. Guardamos pesos desnecessários, acúmulos doentios de quem não permaneceu, quem decidiu partir, quem escolheu sair de nossa vida. Guardamos os frascos vazios e vamos desperdiçando o perfume suave e único que acalanta a nossa vida. A casa é grande, mas ainda chove. chove lá fora, lá onde existe vida, ar, renascimento. E janelas abertas permitem que a chuva me toque, chegue até mim. A chuva aparece como fertilizante no solo seco e empoeirado de minha vida. É preciso se molhar, lavar a alma, sentir o poder da renovação. Eu me permito o desapego, por excesso de bagagens, a chuva me ensina a evitar os fardos desnecessários, os mortos que carrego em vão. Ainda chove, ainda existe a  novidade, possibilidades, mudança de cores, amores, mudança de casa, talvez. Estou de mudança, não por achar a casa pequena, mas o mundo lá fora tem mais cor, não quero a segurança de arquivos mortos, quero a dança sutil da água caindo em mim, dançar na chuva  viver sem muita bagagem, levar só o que necessito para nunca esquecer quem eu sou e para onde nunca devo voltar.

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