domingo, 24 de janeiro de 2016

DIANTE DE MIM TEM UM EU

POR CARLOS BELO

Meus primeiros 23 dias de 2015 contaram com a presença forte, sutil, doce e áspera, mas sobretudo misteriosa de Clarice Lispector e seu A paixão segundo G.H. Falar de Clarice para mim não é fácil, é muito atrevimento. Antes de tudo, deixo registrado que não pretendo fazer nenhuma análise literária, nada profissional, sou amador, atrevido, encantado e com vontade de deixar guardado meu pensar, a reflexão que este livro me proporcionou.
FOTO: Carlos Belo
Uma sequência de 191 páginas. Poderia ser uma leitura fácil, rápida, sem necessidade de longos 23 dias. Mas é CLARICE! Um livro escrito de dentro pra fora, num rasgar-se em emoção, questionamentos, dúvidas, palavras. Ler Clarice é sempre um ato de infiltração no íntimo de nós mesmos, no livro aqui referenciado há um discurso ousado e a própria G.H. nos "Obriga" a adentrar naquele discurso, mãos entrelaçadas, leitor e narrador. Me vi preso naquele quarto, pasmado diante de uma barata e diante de uma vida, de tantas vidas que habitam em mim. um infinito de mistérios que todos nós carregamos. Diante de mim, um livro. Diante de mim, um eu. Ler Clarice vai além de ler um texto, isso o deixaria sem sentido. É um ato de se permitir o devaneio, se jogar sem medo da queda. E atentar para o espaço entre o pulo e o contato com o chão, o milagre acontece nesse espaço, no intervalo imperceptível mas presente, que ninguém faz questão de notar.
A leitura me deixou inquieto: tradição, costumes, aparências, vida social, submundos, religiosidade, ah, Clarice me ajudou a desorganizar o que eu mesmo já desorganizara antes do vir a ser conceito para mim: Um Deus criado pelo homem com funções definidas e especificidades voltadas ao próprio interesse humano.
É uma leitura que provoca, inquieta, uma barata prestes a adentrar em nossa boca. Além do que os outros enxergam, o que há em você? Quem é você? Qual sua função no mundo e qual o sentido do mundo? Estamos sempre presos a esperança de um dia melhor, esperamos a salvação, esperamos o céu. Adiamos as urgências, despreparados para o que desejamos, vamos deixando para frente, empurramos sempre para o amanhã. Deixar-se viver. Presente. Agora. Sem buscar palavras certas, sem dar nomes, sem esperanças. Agora. A vida é urgência. viver é essa coragem louca de deixar romper-se e extrapolar toda e qualquer (DE)limitação.

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