sábado, 13 de fevereiro de 2016

APEDREJAI A TI MESMO

Por Carlos Belo
 
Um livro forte, que nos faz parar para observar a vida da personagem/narradora mas também parar para observarmos a nossa vida. Pontos importantes são postos a nossa frente: quem somos, nossos sonhos mais antigos, planos que se desviaram, rotas alteradas, sorte ou a falta dela. Paulo Coelho sempre me transmite uma energia positiva em seus escritos, uma fé na humanidade, um desejo de mudar, de começar com pequenas práticas diárias de permissões para que as bênçãos do universo recaiam sobre mim.
Foto: Carlos Belo
 
Adultério nos mostra o lado mecânico da sociedade atual, como li em algum lugar: estamos nos transformando em homens-formiga. Marchamos obedientes em fileiras organizadas seguindo um código de conduta pré-estabelecido, já sabemos quais serão as palavras que usaremos, já temos o enredo de nosso destino. Mas onde ficam nossos sentimentos? Nossos instintos humanos e muitas vezes irracionais? Vivemos também em tempos de fachadas sociais. Casamentos eternamente felizes, famílias estruturadas, carreiras brilhantes, fotos lindas no Instagram. Vãs tentativas de esconder quem realmente somos, nós e nossos vazios, nossos silêncios e monstros. A personagem sai em busca de si, e nessa busca encontramos o significado de família, ética, dinheiro, fama, amor e sobretudo, a importância do perdão. Perdoar a si mesmo, se permitir viver sem culpa de sermos quem somos, abraçar a vida que é uma menina a correr sem medo de possíveis quedas. Aceitar também o perdão que o outro nos oferta, mesmo sem nunca precisarmos confessar nossos erros. Perceber que somos amados, que  existem pessoas que nos conhecem sem precisarmos falar onde erramos e que estão dispostas a nos amar mesmo assim.
Erros todos nós cometemos, mas erros são necessários no aprendizado. É com muitas quedas que se faz uma bailarina. Mas a beleza da dança final só é possível para aqueles que ousam ir adiante. A queda é inevitável, mas permanecer caído é opcional. Todos nós somos adúlteros quando traímos a nós mesmos, nossos princípios, nossas escolhas, quando deixamos de lado nossos sonhos, quando deixamos nos corromper pela doença do comodismo ou da vaidade que cega e acorrenta nossa liberdade. Precisamos de pedras, como nas narrativas bíblicas, apedrejar toda e qualquer forma de reducionismo humano, de "coisismo", de acomodação doentia. Apedrejar as aparências e convenções sociais, todos os decretos normativos. Precisamos da livre e deliciosa experiência viva de buscar o que nosso coração deseja.
 
"Amar abundantemente é viver abundantemente. Amar para sempre é viver para sempre. A vida eterna está atrelada ao Amor." (Adultério, p. 173)
 
Livro citado:
 
COELHO, Paulo. Adultério. Rio de Janeiro: Sextante, 2014.

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